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Dr. Marcelo Magalhães Prof. Titular de microbiologia da UFPe
No início dos anos 80 do século XX, na Austrália, Robin Warren e Barry
Marshall destruíram o mito de que o estômago é um órgão estéril. Eles
conseguiram cultivar em ágar sangue um microrganismo, o Helicobacter
pylori, e demonstraram seu papel na etiologia das gastrites e úlceras
pépticas. Essa descoberta causou verdadeira revolução na
Gastroenterologia, desde que as úlceras gastroduodenais, em vez de
antiácidos, passaram a ser tratadas com antibióticos. O reconhecimento
dessa relevante contribuição científica pela comunidade internacional
proporcionou àqueles pesquisadores o Prêmio Nobel em Fisiologia ou
Medicina de 2005.
O H. pylori é uma bactéria gram-negativa espiralar com ávida predileção pela mucosa gástrica humana (Fig. 1).
Sua transmissão ocorre predominantemente pelo contacto direto entre as
pessoas. Nos países desenvolvidos a rota oral-oral é mais freqüente,
enquanto nas regiões em desenvolvimento a transmissão mais provável é a
fecal-oral. Admite-se que aproximadamente 30% dos pacientes com
dispepsia nos países desenvolvidos estejam infectados pelo H. pylori,
prevalência que se eleva para 80% nos países em desenvolvimento. A
despeito disso, o número de indivíduos que adoece é pequeno. Geralmente
há apenas leve gastrite crônica, clinicamente irrelevante. Numa minoria
de infectados, entretanto, a gastrite é acentuada e pode evoluir para
úlceras gastroduodenais, gastrite atrófica, linfomas, adenocarcinoma
gástrico e mesmo doenças extragástricas, como anemia ferropriva e
púrpura trombocitopênica idiopática, processos patológicos que demandam
a erradicação do microrganismo. A diversidade na resultante da infecção
humana pelo H. pylori indica que há linhagens de H. pylori mais
virulentas que outras e que a resposta do paciente à infecção é
variável e dependente de seu polimorfismo genético.
Decorridos 25 anos da descoberta do H. pylori, a euforia inicial dos
gastroenterologistas, resultante do sucesso obtido na erradicação da
bactéria em aproximadamente 95% de seus pacientes, está sendo
paulatinamente substituída pela frustração. Como já ocorreu com outras
infecções bacterianas, há crescente número de observações relatando
falhas terapêuticas com o uso das mesmas drogas que inicialmente foram
eficazes.

TRATAMENTO
O III Consenso de Maastricht, realizado em 2005 e publicado em 2007,
estabelece normas sobre os esquemas terapêuticos a serem usados na
erradicação do H. pylori. É importante considerar se o paciente é
virgem de tratamento (VT) ou se foi previamente tratado por uma ou mais
vezes sem sucesso. Conhecer a prevalência de linhagens resistentes à
claritromicina e ao metronidazol na comunidade ajuda a decidir que
esquema empregar.
Situação l. Pacientes VT, prevalência regional de
cepas resistentes à claritromicina e ao metronidazol menor que 15-20% e
40%, respectivamente. O tratamento padrão indicado é um esquema
tríplice reunindo um inibidor da bomba protônica (IBP) aos antibióticos
claritromicina e metronidazol durante, pelo menos, sete dias. Nas
regiões de elevada prevalência de estirpes resistentes ao metronidazol,
essa droga pode ser substituída pela amoxicilina, embora isso leve a
uma diminuição do sucesso terapêutico de 97% para 88%. No Brasil,
meta-análise de três inquéritos sobre a droga resistência do H. pylori
publicados entre 2002-2003: Prazeres Magalhães & col., Godoy &
col. e Mendonça & col., reunindo 447 pacientes, mostra uma
prevalência de 14,3% de linhagens resistentes à claritromicina e de 50%
ao metronidazol. No Recife, os dados são semelhantes. Portanto, no
Brasil, é aconselhável substituir o metronidazol pela amoxicilina ou
pela furazolidona. No caso de se escolher a furazolidona deve-se
alertar o paciente para os graves efeitos colaterais que podem advir
quando bebidas alcoólicas e certos medicamentos são utilizados durante
o tratamento. Talvez, uma melhor alternativa fosse a levofloxacina. No
Recife, todavia, estudo em andamento já aponta a ocorrência de 17% de
cepas resistentes àquela fluoroquinolona.
Situação 2. Pacientes não-VT. Recomenda-se um esquema
quádruplo envolvendo um sal de bismuto, um IBP e dois antibióticos. A
conduta racional é escolher os antibióticos baseando-se no
antibiograma. Se isso não é possível, mais uma vez, levar em conta a
prevalência da droga resistência na região. No Recife, estudo em
progresso mostra que a resistência à amoxicilina, tetraciclina,
furazolidona ou rifabutina é ausente ou ainda muito rara. Portanto,
recomenda-se usar ao lado do bismuto e IBP dois desses antibióticos.
Desde que há uma referência sobre péssimos resultados obtidos com o uso
da amoxicilina + tetraciclina, essa associação antibiótica deve ser
evitada nos tratamentos de resgate.
Recentemente, variadas publicações oriundas da Itália reportam bons
resultados com o uso de um esquema de tratamento seqüenciado, isto é,
cinco dias do IBP mais amoxicilina seguidos de mais cinco dias do IBP
mais claritromicina e tinidazol. Segundo esses autores a amoxicilina
desorganizaria a parede celular da bactéria, impedindo a formação de
canais de efluxo. Esses canais facilitariam a saída da claritromicina
do citosol bacteriano, impedindo sua ligação aos ribossomos e a
conseqüente inibição da síntese protéica. Essa abordagem terapêutica
não foi ainda suficientemente avaliado em outros países para merecer
indicação.
INSUCESSO TERAPÊUTICO
Qualquer que seja o esquema terapêutico escolhido, ele deve
garantir uma concentração de droga capaz de inibir o crescimento
bacteriano no local da infecção. Além disso, desde que as bactérias
componentes da população não se encontram sempre no mesmo estágio de
atividade metabólica ou de reprodução, a droga deve permanecer no local
por tempo suficiente para que o máximo possível de microrganismos
exponha às drogas sua estrutura alvo. No caso especial do H. pylori, a
atividade de alguns antibióticos, como a amoxicilina, é prejudicada
pela acidez estomacal, daí a necessidade de elevadas doses do IBP.
Também, esse microrganismo, considerado por longo tempo como não
invasor, pôde ser visualizado através da imunoeletromicroscopia ou da
microscopia confocal dentro do citoplasma das células parietais; onde
estaria ao abrigo de drogas incapazes de atingirem o espaço
intracelular. Embora esses fatores tenham influência, as principais
causas do insucesso terapêutico são, indiscutivelmente, a falta de
aderência ao tratamento pelo paciente e a resistência às drogas da cepa
bacteriana infectante.
No H. pylori, mutações gênicas pontuais, durante a replicação do
DNA, são o único mecanismo responsável pela droga-resistência. A
aquisição de genes de resistência do ambiente, através da
transformação, também foi esporadicamente relatada. O H. pylori abriga
plasmídeos, contudo eles jamais foram responsabilizados pela
transferência de genes de resistência. Portanto, nesse microrganismo, a
resistência aos antibióticos é transferida verticalmente, do ancestral
mutante aos seus descendentes.
Comparado a outras bactérias, o H. pylori é um microrganismo
hiper-mutável. Sua frequência de mutação é dependente do marcador
considerado e varia muito entre as diversas linhagens bacterianas. Com
referência à rifampicina, por exemplo, encontraram-se taxas de mutação
elevadíssimas em algumas estirpes, 3x10-5, e em outras, taxas muito
mais baixas, 4x10-8. Por outra parte, em relação à eritromicina a
freqüência de mutação é menor, oscilando entre 1x10-7 e 5x10-9. Quanto
maior for a população bacteriana no local da infecção, maior é a chance
de ocorrerem mutações de resistência, eventualmente selecionáveis
durante a antibioticoterapia. Considerando a média das taxas de mutação
do exemplo acima, para que fossem encontradas bactérias resistentes a
duas drogas seria necessária uma densidade populacional em torno de
1x1014; o que é impossível. Isso evidencia a importância das
associações antibióticas.
Especial atenção, em qualquer esquema de tratamento do H. pylori,
merece a claritromicina. Ela difunde-se com facilidade na mucosa
gástrica, não tem a sua capacidade inibitória afetada pela acidez e é
ativa contra bactérias localizadas intracelularmente. Embora a seleção
de mutantes resistentes à claritromicina seja elevada, em torno de 40%,
após o insucesso de esquemas terapêuticos incluindo essa droga, número
ponderável de cepas permanecem ainda susceptíveis. Embora existam
controvérsias, sugeriu-se a possibilidade de cepas resistentes
reverterem à susceptibilidade após a suspensão do tratamento. Poder
contar com a claritromicina em tratamentos de resgate seria muito bom.
Para isso, entretanto, é absolutamente necessária a realização de um
antibiograma demonstrando que a estirpe bacteriana é ainda susceptível.
Nos casos de cepas claritromicina resistentes, o sucesso de erradicação
é mais elevado no esquema IBP + claritromicina + metronidazol que no
esquema IBP + claritromicina + amoxicilina (50% v 18%,
respectivamente). Isso se deve ao fato de o metronidazol difundir-se
com mais facilidade na mucosa do estômago e de não ser afetado pela
acidez gástrica, o que não ocorre em relação à amoxicilina. A
superioridade da claritromicina sobre as outras drogas é evidenciada
quando se usa IBP + claritromicina + metronidazol no tratamento de
linhagens resistentes ao metronidazol. Neste caso, ainda se obtém um
sucesso terapêutico da ordem de 72%.
ANTIBIOGRAMA
Embora o III Consenso de Maastrich proponha a realização de
antibiogramas para o H. pylori apenas quando duas tentativas de
erradicação falharem, a crescente disseminação de linhagens resistentes
em indivíduos VT recomenda a realização do antibiograma de maneira
irrestrita. Uma das premissas básicas que regem o tratamento racional
de qualquer infecção bacteriana é conhecer a susceptibilidade aos
antibióticos da linhagem bacteriana envolvida. Na prática clínica, um
dos motivos que impedem a adoção dessa política é a demora na obtenção
de resultados. Entretanto, 15 dias não fazem diferença sobre o
resultado do tratamento de infecções crônicas e de longa duração, como
aquelas ocasionadas pelo H. pylori; porém, o emprego de drogas para as
quais o microrganismo é resistente, faz.
Na prática dos laboratórios clínicos o método rotineiro de testar a susceptibilidade do H. pylori é o E-teste (Fig. 2).
Infelizmente o método é muito dispendioso, em média R$80,00 se quatro
drogas são testadas. Dada a elevadíssima sensibilidade de muitas cepas
bacterianas, cada fita impregnada com antibiótico exige uma placa de
ágar sangue individual para evitar a confluência das elipses. Do ponto
de vista custo/benefício, seria mais proveitoso testar apenas a
sensibilidade à claritromicina.

Nos laboratórios que dispõem de um setor de Biologia Molecular, a
opção mais prática é o emprego da PCR em tempo real. O resultado é
conseguido rapidamente, porque não há necessidade de cultivar o
microrganismo e o teste é relativamente barato. A quase totalidade das
linhagens resistentes à claritromicina apresenta mutações pontuais no
gene codificador do rRNA 23S: A2142G, A2143G e ou A2142C, facilmente
reconhecíveis utilizando-se a PCR em tempo real com sondas TaqMan? (Fig.3).
O sequenciamento do genoma do H. pylori, realizado em dois laboratórios
distintos, mostrou que esse organismo possui duas cópias do gene
codificador do rRNA 23S. A mutação é dominante, isto é, mesmo ocorrendo
em apenas um dos alelos é suficiente para expressar o fenótipo
resistente.
Concluindo: a progressiva disseminação de estirpes resistentes do H.
pylory sugere a necessidade de se realizar antibiograma prévio para a
escolha racional do esquema terapêutico, independentemente de
tratamento prévio.
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