Especialistas da área de saúde são praticamente unânimes: declarações como a do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) - "ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina" -, reiterada na última sexta-feira, dão mais munição às milícias do movimento antivacina, que fazem barulho nas redes sociais. O resultado do negacionismo é um claro retrocesso evidenciado nas taxas de cobertura vacinal, que apresentam queda vertiginosa nos últimos anos no Brasil.

Até julho passado, a cobertura no país estava bem longe de atingir a expectativa do Governo Federal de imunizar 95% do público-alvo este ano. A cobertura contra tuberculose chegou a 50%; a pentavalente, que previne contra meningite, tétano, difteria, coqueluche e hepatite B, está em 51%; e a tríplice viral, contra sarampo, caxumba e rubéola, em 54%. A vacina com menor cobertura até agora é a última dose contra a poliomielite: 42%.

Dados do Ministério da Saúde mostram que nenhuma das dez vacinas do Programa Nacional de Imunizações - criado em 1973, em pleno regime militar, e referência no mundo - para crianças menores de 2 anos atingiu a meta de cobertura em 2019. A Sabin, que erradicou a poliomielite no Brasil em 1994, foi a que contou com menor adesão: 82,10%. Vale ressaltar que a erradicação de uma doença só se mantém se o nível de cobertura vacinal continuar em patamares altos.

Diante desse cenário, profissionais da saúde se mobilizam para reverter o quadro. Informação séria e de qualidade - esta é a vacina que a médica especializada em endocrinologia pediátrica Daniela Seabra Lima, com mais de 15 anos de experiência, prescreve contra a epidemia de fake news que vem demonizando a imunização nos últimos anos. Posicionamento compartilhado com a infectopediatra Anne Galastri.

Uma contradição apontada por Daniela é que, nesse momento de pandemia, estão todos ansiando por uma vacina contra a Covid-19 e, ao mesmo tempo, deixando de tomar as que já existem para combater outras doenças contagiosas.

"As pessoas estão receosas de a ir aos postos de saúde ou às clínicas privadas para vacinar, mas é importante que a gente coloque na balança: se eu pegar outra doença, posso ter que ir a uma emergência, minha imunidade vai cair ainda mais e eu fico mais suscetível à Covid. As vacinas atuais não protegem contra a Covid, mas protegem de outras doenças", argumenta.

Sobre a declaração de Bolsonaro, que reforça a causa dos negacionistas, a médica diz que, de fato, as pessoas podem escolher, mas é papel dela e de todos os profissionais de saúde esclarecer e evidenciar os benefícios. "Mostro como é importante não só para proteger a minha saúde e a da minha família, mas também da minha comunidade. Se estou vacinado, protegido, eu evito a doença em mim e evito contaminar outras pessoas".

Para Daniela, a vacinação é uma obrigação de todos como cidadãos, porque a opção por não se proteger interfere também na saúde das outras pessoas. "Eu não posso obrigar, mas posso trazer informações sérias para convencer as pessoas desse dever como cidadãs, de cuidar da saúde também da comunidade. Alguns acham que é perder tempo, mas eu acho que ganho tempo com essas orientações. Para mim, é a melhor forma de combater as fake news".

Orientação em consultório

Daniela Seabra, que também é diretora médica do Laboratório LPC há mais de dez anos, conta que, em consultório, se depara frequentemente com a resistência das famílias em aderir à imunização das crianças.

"Eles [os pais] colocam assim: 'algumas doenças a gente nem vê mais, por que eu preciso vacinar?' Quando chegam com esse questionamento, eu paro a consulta e passo um tempo orientando. Explico que a doença não existe mais porque a gente tem uma vacina muito boa, porque a gente investiu na vacinação. Se não fosse por isso, a doença ainda estaria aí. Então, essa é uma prova da eficácia das vacinas e da importância delas. A gente tem que rebater com informação", defende.

Daniela atribui o movimento antivacina justamente à enxurrada de fake news que inunda as mídias sociais. "Mostram só o lado raro, difícil de acontecer, como a reação vacinal. E as pessoas acreditam e se assustam", constata ela, recomendando que a população confie no médico e esclareça todas as dúvidas na consulta.

Ela ressalta que o pediatra tem papel fundamental no consultório para conscientizar as famílias sobre a importância da vacinação. "Alguns estudos mostram que quando o médico toca no assunto, orienta e indica, as famílias tendem mais a buscar a vacinação. O maior influenciador, mais até do que as campanhas, ainda é o médico".

Vacina contra sarampo não causa autismo

Um caso já famoso de disseminação de informação falsa, que ocorreu no fim da década de 1990, continua assombrando os consultórios pediátricos. Na Inglaterra, um médico - que posteriormente teve o registro profissional cassado - publicou um artigo relacionando a vacina contra o sarampo ao autismo.

Daniela lembra bem do episódio e lamenta que precise enfrentar isso até hoje. "Foi em 1998. O periódico que publicou esse artigo precisou se retratar publicamente, retirou a publicação do ar, mas ficou a informação ruim, que até hoje, infelizmente, persiste".

Essas e outras fake news colaboraram para o momento atual, quando se observa o retrocesso representado pelo movimento antivacina. O Brasil, que havia obtido o selo de área livre de sarampo nas Américas, perdeu a certificação ao registrar novos casos da doença em 2019 - cerca de 18 mil notificações e 15 mortes.

Hoje, o vírus do sarampo circula em 20 estados brasileiros. Questionada sobre a cobertura vacinal para a doença em Salvador, na faixa etária entre 0 e 5 anos, a assessoria da Secretaria Municipal da Saúde (SM) disse que só poderá disponibilizar a informação na próxima terça-feira (8).

Origem do Programa Nacional de Imunização

O Brasil tem o maior programa público e gratuito de imunização do mundo. São distribuídas, a cada ano, mais de 300 milhões de doses de imunizantes para todas as faixas etárias: crianças, adolescentes, adultos e idosos, além de programas específicos para gestantes.

O Programa Nacional de Imunização (PNI) conta com 37 mil postos públicos de vacinação de rotina em todo o país. Durante as campanhas de imunização, este número chega a 50 mil postos e 51 Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais.

O PNI foi criado em 1973, após o Brasil investir em uma campanha de vacinação em massa contra a varíola, doença altamente contagiosa que matou entre 300 e 500 milhões de pessoas no mundo no século XX. A enfermidade causava a morte de 30% das pessoas infectadas. O último caso de varíola foi registrado em 1977, na Somália.  A doença foi declarada erradicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1980.

Fonte: Portal Muita Informação

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